A Retornada


Laura Erber

( suomi )

Sinopsis

Encaro a poesia como uma escrita de começos – de retorno, de retomada de um recomeçar incessante – e como gênero de agitação. Essa é uma ideia que peço emprestada ao Jean-Christophe Bailly, e aqui agitação é a agitação da língua oscilando entre o verso e a frase, a agitação do pensamento que não se cristaliza nunca ou não se pacifica, agitação das imagens difíceis de serem descritas e vistas, agitação dos sentimentos e dos sentidos; o livro é bastante sensorial, a parte final fala de uma experiência de quase morte e de um coma, e o livro como um todo fala do retorno aos poetas e autores com quem dialogo por contágio mas também ao retorno à vida depois dessa experiência mortífera. 

Poema de Laura Erber, tomado del libro A Retornada.

As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Heiner Müller

Os poemas são meio surdos e as imagens a princípio

não são de ninguém. O olho é que inflama. A imagem

chuvisca. Os poemas também mas a imagem arrisca.

O poema incendeia, reconsidera, desiste. Nem a espiral

de um ponto de vista ardentemente perseguido nem grãos

de luz sem destino. O olhar exploratório ainda não é a

imagem. Os poemas são sapatos. As imagens emborcam.

Os poemas são ardências, são porradas. Imagens não

perdoam, o poema trespassa. A palavra rompe a mordaça,

a imagem nem sempre resvala, espera. O poema diz

em nome próprio no parco som das cordaturas.

O espaçamento nos libertará do duplo laço? Mas isso

ainda não é o poema. A imagem regateia. Os poemas

persistem. Abelhas e todo um mundo a ser envenenado.

Imagens duplicam antigas provas de existência. São

escamosas, são amargas, são Medéias. Os poemas

são cansaços. As imagens apodrecem. Os poemas são

incensos, esvoaçam. Poemas ofendem. Imagens acusam.

Epifania é um encontro na luz, uma imagem pode ser

isso e ser também o seu contrário. O poema alastra. A

imagem recua. O poema excita. A palavra é gasta, a

imagem encrua. A imagem puxa o corpo pelos cabelos, o

poema, o punho o logro. No poema eu respiro contigo. A

imagem é sempre outra coisa. O poema vela. As imagens

nos despojam do sudário. Tudo começa numa cova

ou na chispa do artifício. A imagem trincha, o poema

entumesce. Acontece no silêncio de uma imagem ser

escudo. O poema é de plástico. A imagem suborna, é o

floema, o influxo, o caldo. Nem todo desenho é imagem.

O arco do poema enverga a prosa. A imagem transtorna,

vem no vento que espalha os papéis. O poema glosa.

O poema é uma devassa, desce pelas coxas enquanto

a imagem diz vem, é agora. O poema na sombra das

coisas. A imagem cheia de moscas. Vem, é agora.

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